Ainda cabe ser quem não somos? Padrões de beleza e desconstrução

Hoje eu não recomendaria que alguma mulher saísse de casa sem conhecer “O Mito da Beleza”, de Naomi Wolf. Imaginaria um mundo em que andaria pelas ruas e encontraria outras mulheres com os exemplares do livro sob o braço: ali, teríamos todas a consciência de como o patriarcado é cruel, como somos submetidas a pressões estéticas e nos violentamos para entrar nas caixinhas em que deveríamos caber.

Aos 34 anos, tenho refletido cada vez mais sobre como nós, mulheres, somos moldadas por uma sociedade opressora e, ainda assim, após anos de pequenas violências contra nossos corpos, de dietas enlouquecedoras a escova progressiva e depilação com cera quente, nunca seremos aceitas como o padrão.

Ainda assim, mesmo as mulheres que, formatadas, se encaixam, são menosprezadas no ambiente profissional. Somos programadas para nunca estarmos satisfeitas com quem nós somos: você olha para si e percebe que deveria estar no padrão e, se você atende o padrão, se sente menos inteligente – quantos homens no mercado de trabalho não pensam que você, por estar no padrão, não é uma mulher séria? E, se me encaixo no padrão, ainda oprimo outras mulheres que não estão. Definitivamente, nós sempre estamos perdendo no jogo da beleza.

A primeira vez que me deparei com estilos de beleza alternativos foi logo que entrei na faculdade de Letras. Lá, abandonei questões firmadas na cabeça de quando era uma das poucas alunas negras em uma escola de classe média alta, longe do padrão das meninas “bonitas” – me escondia, usava roupas largas e criava a imagem de que não queria ser uma delas. Apesar do primeiro contato com a máxima “posso ser bonita do meu jeito”, só perto dos 30 anos comecei a gostar de mim e entendi que poderia ter o cabelo curtinho, por exemplo, se quisesse. Ali parei de fazer escova progressiva, uma das piores violências cometidas contra mim.

O paradoxal é que, ao mesmo tempo em que eu não quero me violentar fazendo essa e outras intervenções estéticas, quero garantir o direito das mulheres de modificarem seus corpos como desejarem. Afinal, entendo as pressões às quais elas estão sendo submetidas e valorizo a autonomia das suas vontades.

Pouco tempo depois, me  “viciei” em maquiagem e cheguei ao ponto absurdo de me negar a ir a compromissos e a festas porque não tinha tempo para me maquiar. Só agora. aos 34, tenho passado pela grande transformação que é sair para trabalhar sem maquiagem. Creio que várias de nós vivemos um movimento de pêndulo entre buscar a feminilidade e negá-la para, finalmente, chegar a um ponto de equilíbrio e entender a nossa própria forma de feminilidade.

Claro que para os homens a pressão não é tão grande, enquanto nós nos sentimos uma grande fraude se não correspondemos às expectativas forjadas. Nem de longe é fácil entender onde nós estamos em referência ao padrão e como ser do jeito que somos causa uma pressão estética em quem está em torno de nós. Muitas vezes eu reflito, enquanto professora de meninas (bem) mais novas, se não as pressiono com minha imagem, seja na maquiagem, seja nos vestidos.As minhas transformações passam por jamais aceitar esse papel de reforço à opressão.

Uma mudança pequena e transformadora foi abandonar os perfis das blogueiras fitness, todas gostosas, magras e malhadas, em uma estética que eu não consigo atender. Prefiro, hoje, as blogueiras de autoaceitação. Vale a pena seguir a @Modices e a @ConsueloBlocker, além da @alexandrismos.

Hoje consigo ver a sensualidade no corpo de uma mulher de 60 anos, em uma mulher gorda, em uma mulher negra. Precisamos nos expor a essas imagens menos tóxicas, educar o olhar para a diversidade, perceber a beleza em diferentes tamanhos, cores e formatos.

Vamos falar mais sobre isso?

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